Janelas e Espelhos: breves reflexões sobre um Festival de Fotografia de Autoria

Grades de ferro emolduram a entrada de um grande edifício do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Em plano detalhe, observamos que nessas grades há um desenho esculpido no ferro. Este desenho se assemelha a um coração cujas bordas contínuas se transformam em curvas que se repetem ao longo da grade. Eis que estamos olhando para um Sankofa: símbolo Adinkra oriundo da África do Oeste e trazido para o Brasil pelo povo Akan no decorrer da forçada diáspora africana para as Américas. Mas por que começar um texto sobre um festival de fotografia e sobre autoria fazendo menção a um símbolo esculpido numa grade de ferro?

Todo símbolo tem por detrás histórias e pessoas que dão continuidade a elas. No caso do Sankofa, o sentido do símbolo consiste: nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou atrás. Uma sabedoria deixada como herança africana disseminada em nosso cotidiano através dessa memória em ferro esculpida pelos portões da cidade. E no caso da fotografia? De onde brota sua carga simbólica e de memória? 
Se considerarmos que fotografia é para além de ato e conceito também, cultura humana feita de carne, osso e um punhado de histórias e sensações poderemos chegar a uma síntese feita pela filósofa Marilene Chauí no texto Janela da Alma, Espelho do mundo. No texto ela nos provoca: Quem olha, olha de algum lugar. A partir daí, acreditamos que a visão fotográfica se faz em nós pelo fora, e ao mesmo tempo se faz de nós para fora. Falaremos então de abstrações, reivindicações e escolhas. A opção por adentrarmos esse terreno da fotografia a partir de uma perspectiva que privilegia as histórias das autoras das imagens partiu de um desejo por revelar principalmente o que aconteceu nesse ‘em nós’ no decorrer da concepção das séries fotográficas. Perceba, dissemos, concepção.
O visível revelado nas grades de ferro onde habitam o sistema de símbolos Adinkras exibem de forma subliminar as tantas mãos e a cultura que deu origem às esculturas. O mesmo esperamos que aconteça com as fotografias selecionadas para este primeiro Festival de Fotografia de Autoria. Desta forma, estimulamos o espectador emancipado a entrar nas galerias online das fotógrafas de forma investigativa. Com olhos gulosos por conhecê-las um pouco mais através das imagens e dos fragmentos de textos biográficos que estarão compondo uma colcha tecida com fios de prata que cintilam à medida que criadora e criatura capturam a atenção daquela ou daquele que decide decifrá-las.
Como curadora desse primeiro Festival faço questão de registrar que foi uma grande oportunidade conhecê-las melhor e buscar refletir sobre a relação íntima entre trajetória, identidades e olhares fotográficos. Sobre o que há de interior nessa exterioridade feita de matéria foto-sensível.
Marina .S. Alves
(@marina.foto.grafias)
Fotógrafa e Cientista Social
Curadora do Festival de Fotografia de Autoria
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